Se até quinta trabalhei bastante, desde quinta a falta de trabalho reina.
Naquela noite, saí com o Grega. Ficamos rodando pelos bares do Bairro Alto, sem muito onde ir. Foi uma noite bem divertida. Acabamos em uma festa meio estranha.
Na sexta, acordei e fui até o Colombo, o maior shopping daqui. Meu plano era ir atrás de uma mala para a minha viagem. Não sei porque, mas só me ofereceram Samsonite. Acho que vou acabar ficando com uma que vi na quinta, quando por acaso passei numa loja na Baixa.
Depois da busca sem resultados, a noite, fui com a Johanna e o Grega até a casa da Ana. Lá, mais a Minna e duas amigas finlandesas, a Aude e seus colegas de apartamento da França e Bélgica. Mais tarde, no Miradouro de Alcântara, encontrei o Kasper e as meninas da ESPM. Ficamos com esse pessoal até depois do Bairro fechar. Foi uma noite bem divertida.
Então, no sábado, não saí de casa. A tarde, escrevi um texto para a minha cadeira de Técnicas Discursivas. Ficou legal, vou postar ele ali embaixo. A noite, não sai. Preferi ficar vendo algo no computador. Na verdade, meu plano era escrever, mas não consegui.
Hoje, no domingo, fui dar uma caminhada. Fui até o Miradouro de Alcântara onde, por acaso, encontrei o Kasper e a Veera, outros Erasmus lá do IADE. Fiquei um tempo falando com eles e depois tentei desenhar. Gosto de caminhar como hoje, ouvindo música, sem muito se preocupar com onde se está realmente indo.
Fui reparando nos muros e alguns grafites, gosto de tirar fotos disso. E, por estar com a camisa do Grêmio, fui parado algumas vezes por brasileiros. Um deles até mesmo me convidou para ir para Caiscais amanhã, mas não posso porque vou até a Ogilvy.
O mais estranho foi caminhar pelo Bairro Alto domingo de tarde. Sempre que vou lá, é lotado, barulhento. De tarde, parece uma cidade fantasma. Todas as portas e janelas fechadas, ninguem pelas ruas. É uma grande transformação do dia para a noite.
Agora, estava fechando o hostel para a minha viagem. Desisti de vez dos couchsurfers. Já achei lugares que aparentemente são legais para ir. Em Paris foi complicado. Pelo jeito lá não existem muitos hostels legais. Finalmente, só o que falta é minha mala mesmo. Mas pretende resolver isso amanhã de manhã.
Aqui, o texto que fiz:
Madrugada em claro
Mais um madrugada em claro. A rua está vazia, calma. O único som que escuto é o dos pingos de chuva martelando o telhado em ritmo contínuo. Dos vizinhos, não escuto mais nada. Agora descansam, depois de algumas horas de sexo barulhento que consegui acompanhar contra minha vontade. A minha casa vazia e escura. Tudo quieto, inerte. Apenas a luz sobre a minha mesa acesa, dando um clima sombrio. Móveis velhos, um sofá e uma poltrona encardidos na sala de estar, sem nenhum quadro ou foto. Livros espalhados pelo chão. Cheiro de velho, de antigo. Tudo é memória e nostalgia.
Ao canto da sala, eu enfrento meu dilema mais uma vez. É uma guerra que já dura semanas. Eu, escritor, não consigo escrever. Já me sentei aqui por horas e horas, mas a caneta nunca chega a tocar o papel. Ou melhor, toca. Faz rabiscos sem sentido, desenhos mal feitos, frases soltas desconexas, inícios que não dão em nada. São todos traços inúteis, me mostrando o quão incapaz eu sou, me mostrando como meu tempo é jogado fora cada vez que me sento nessa cadeira, a beira dessa mesa, com essa velha caneta em punho, com esse bloco em minha frente.
Sobre minha mesa, além do meu material de trabalho, duas garrafas de vinho. Uma cheia e uma vazia. Não consigo evitar, sempre me escapo com algum entorpecente. Mas parece que essa solução se esgotou. Nessas últimas semanas, já tentei de tudo. Álcool, drogas, sexo. Mas nada, absolutamente nada, consegue me fazer escrever. Então, depois de bebado, depois de chapado e depois do gozo; entre as garrafas, com a mulher ainda em minha cama, com meu cigarro ainda aceso, me vejo ainda nessa mesa, mas sem escrever.
As ideias se esgotaram. Os sentimentos se esgotaram. Eu me esgotei.
Todo escritor passa por isso, meus amigos diriam. Mas eu não tenho amigos. Já tive. Já dei festas, já tive amores, já tive fama, já tive algum dinheiro. Mas não tenho mais. Também já não fui manco e já não fui broxa. Mas hoje sou. E o que tenho agora são minhas garrafas de vinho, uma geladeira vazia e um monte de problemas. Só não tenho ideias.
Me levanto com meu cigarro. Vou até a janela e vejo um velho cachorro de rua se abrigando da chuva embaixo da grande figueira do outro lado da calçada. Vejo meu reflexo no vidro. Não me reconheço mais. Vejo, pelo reflexo, atrás de mim o único retrato que tenho em minha casa. É o retrato dela.
Rápido, volto para a minha cadeira. Troco o cigarro pela caneta.
É isso. Seus cabelos negros. Seus olhos grandes, profundos e azuis. Sua pele macia e branca. Seu pequeno par de seios. É isso. Nossas insandecidas noites. Nossos corpos se chocando. Nossas brigas. É isso. Sua fuga. É isso. A minha tranformação nisso que sou agora: velho, manco e broxa. Pior do que o cachorro da rua.
E assim, no meio da chuva, depois do sexo dos vizinhos, enquanto o cachorro descança debaixo da árvore, entre meus velhos móveis, entre meus velhos livros, sob a fraca luz sobre minha mesa, com a velha caneta, depois de alguns copos de vinho e depois de semanas em claro, eu ganhei. E, finalmente, minha caneta cruza o papel escrevendo a minha história.
Naquela noite, saí com o Grega. Ficamos rodando pelos bares do Bairro Alto, sem muito onde ir. Foi uma noite bem divertida. Acabamos em uma festa meio estranha.
Na sexta, acordei e fui até o Colombo, o maior shopping daqui. Meu plano era ir atrás de uma mala para a minha viagem. Não sei porque, mas só me ofereceram Samsonite. Acho que vou acabar ficando com uma que vi na quinta, quando por acaso passei numa loja na Baixa.
Depois da busca sem resultados, a noite, fui com a Johanna e o Grega até a casa da Ana. Lá, mais a Minna e duas amigas finlandesas, a Aude e seus colegas de apartamento da França e Bélgica. Mais tarde, no Miradouro de Alcântara, encontrei o Kasper e as meninas da ESPM. Ficamos com esse pessoal até depois do Bairro fechar. Foi uma noite bem divertida.
Então, no sábado, não saí de casa. A tarde, escrevi um texto para a minha cadeira de Técnicas Discursivas. Ficou legal, vou postar ele ali embaixo. A noite, não sai. Preferi ficar vendo algo no computador. Na verdade, meu plano era escrever, mas não consegui.
Hoje, no domingo, fui dar uma caminhada. Fui até o Miradouro de Alcântara onde, por acaso, encontrei o Kasper e a Veera, outros Erasmus lá do IADE. Fiquei um tempo falando com eles e depois tentei desenhar. Gosto de caminhar como hoje, ouvindo música, sem muito se preocupar com onde se está realmente indo.
Fui reparando nos muros e alguns grafites, gosto de tirar fotos disso. E, por estar com a camisa do Grêmio, fui parado algumas vezes por brasileiros. Um deles até mesmo me convidou para ir para Caiscais amanhã, mas não posso porque vou até a Ogilvy.
O mais estranho foi caminhar pelo Bairro Alto domingo de tarde. Sempre que vou lá, é lotado, barulhento. De tarde, parece uma cidade fantasma. Todas as portas e janelas fechadas, ninguem pelas ruas. É uma grande transformação do dia para a noite.
Agora, estava fechando o hostel para a minha viagem. Desisti de vez dos couchsurfers. Já achei lugares que aparentemente são legais para ir. Em Paris foi complicado. Pelo jeito lá não existem muitos hostels legais. Finalmente, só o que falta é minha mala mesmo. Mas pretende resolver isso amanhã de manhã.
Aqui, o texto que fiz:
Madrugada em claro
Mais um madrugada em claro. A rua está vazia, calma. O único som que escuto é o dos pingos de chuva martelando o telhado em ritmo contínuo. Dos vizinhos, não escuto mais nada. Agora descansam, depois de algumas horas de sexo barulhento que consegui acompanhar contra minha vontade. A minha casa vazia e escura. Tudo quieto, inerte. Apenas a luz sobre a minha mesa acesa, dando um clima sombrio. Móveis velhos, um sofá e uma poltrona encardidos na sala de estar, sem nenhum quadro ou foto. Livros espalhados pelo chão. Cheiro de velho, de antigo. Tudo é memória e nostalgia.
Ao canto da sala, eu enfrento meu dilema mais uma vez. É uma guerra que já dura semanas. Eu, escritor, não consigo escrever. Já me sentei aqui por horas e horas, mas a caneta nunca chega a tocar o papel. Ou melhor, toca. Faz rabiscos sem sentido, desenhos mal feitos, frases soltas desconexas, inícios que não dão em nada. São todos traços inúteis, me mostrando o quão incapaz eu sou, me mostrando como meu tempo é jogado fora cada vez que me sento nessa cadeira, a beira dessa mesa, com essa velha caneta em punho, com esse bloco em minha frente.
Sobre minha mesa, além do meu material de trabalho, duas garrafas de vinho. Uma cheia e uma vazia. Não consigo evitar, sempre me escapo com algum entorpecente. Mas parece que essa solução se esgotou. Nessas últimas semanas, já tentei de tudo. Álcool, drogas, sexo. Mas nada, absolutamente nada, consegue me fazer escrever. Então, depois de bebado, depois de chapado e depois do gozo; entre as garrafas, com a mulher ainda em minha cama, com meu cigarro ainda aceso, me vejo ainda nessa mesa, mas sem escrever.
As ideias se esgotaram. Os sentimentos se esgotaram. Eu me esgotei.
Todo escritor passa por isso, meus amigos diriam. Mas eu não tenho amigos. Já tive. Já dei festas, já tive amores, já tive fama, já tive algum dinheiro. Mas não tenho mais. Também já não fui manco e já não fui broxa. Mas hoje sou. E o que tenho agora são minhas garrafas de vinho, uma geladeira vazia e um monte de problemas. Só não tenho ideias.
Me levanto com meu cigarro. Vou até a janela e vejo um velho cachorro de rua se abrigando da chuva embaixo da grande figueira do outro lado da calçada. Vejo meu reflexo no vidro. Não me reconheço mais. Vejo, pelo reflexo, atrás de mim o único retrato que tenho em minha casa. É o retrato dela.
Rápido, volto para a minha cadeira. Troco o cigarro pela caneta.
É isso. Seus cabelos negros. Seus olhos grandes, profundos e azuis. Sua pele macia e branca. Seu pequeno par de seios. É isso. Nossas insandecidas noites. Nossos corpos se chocando. Nossas brigas. É isso. Sua fuga. É isso. A minha tranformação nisso que sou agora: velho, manco e broxa. Pior do que o cachorro da rua.
E assim, no meio da chuva, depois do sexo dos vizinhos, enquanto o cachorro descança debaixo da árvore, entre meus velhos móveis, entre meus velhos livros, sob a fraca luz sobre minha mesa, com a velha caneta, depois de alguns copos de vinho e depois de semanas em claro, eu ganhei. E, finalmente, minha caneta cruza o papel escrevendo a minha história.
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